act.

as noites viraram dias rapidamente quando comecei a cair no abismo. as escritas vinham, normalmente de madrugada e eram meu último recurso de prazer. prazer do alívio, finalmente. me despedaçava nas teclas e ao estilizar um poema ou um texto qualquer, me sentia inteiro e respirando novamente.

eu estava evitando com sucesso todas minhas responsabilidades. sem voltar-me ao prazer, acabei me voltando ao nada. eu sabia que aquele momento se tratava de uma bomba-relógio de merda que explodiria em minha cara em pouco tempo. eu deslumbrava das noites e dormia aos dias aguardando o inevitável.

e tudo que lhe toma atenção, quando suas fontes de prazer estão paralisadas, torna-se amargo, superficial, elaborado demais, difícil demais: você tem que cuidar de tudo relativo a si mesmo, na referência dos outros. maqueie-se, sorria, beba, transe, produza, crie e morra conhecido e realizado. você treina a atuação a vida inteira para uma peça que nunca chegará.

One thought on “act.

  1. Você se despedaçava nas teclas ao escrever suas amarguras de madrugada achando que era por nada, mas acho que estava errado… Toda destruição é uma forma de criação, e aqui me parece um exemplo perfeito onde essa realização é verdadeira.
    Se despedaçar nos textos foi o que bastou para você perceber que tem evitado certas coisas na vida, e aposto que esta percepção irá resultar em algo que valha a pena dar atenção.
    Você diz que ensaiamos a vida toda para uma peça que nunca verá sua noite de estréia, mas eu discordo… penso que a peça está rolando faz anos, num exercicio constante de improvisação.

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