cardapios.

Tem um restaurante que vou toda semana. Segunda-feira, sempre as 17-18h e lá está o dono, ele me acena quando entro, eu aceno de volta. Ele interrompe sua conversa com um freguês, pega um cardápio na mão e vem sorridente em minha direção:

– Não preciso de cardápio não, obrigado. Me traz apenas uma coca zero e um copo.

Quando termino minha fala, ele fecha o rosto junto ao cardápio, acena com a cabeça e vai buscar meu pedido. Sou apenas mais um verme explorando sua luz, ar condicionado, cadeira, mesa, TV a cabo e internet – tudo muito oportuno – e pelo preço de uma coca, e ainda ganha-se a coca. Ele deve me odiar. Mas eu vou continuar voltando, nas segundas ao final da tarde, com a mesma cara minha e ele com a mesma cara dele, vamos acenar e trocar uma expressão positiva, durará até ele me trazer aquele cardápio que nunca usei. De qualquer maneira, obrigado Sr. Dono do restaurante, está uma tarde nublada, a cidade da garoa faz jus ao nome, mais algumas desgraças me desprendem da vida e eu estou aqui tentando organizar a merda da minha agenda!

monge estressado.

my room still full of smoke. the place, it gets a different air everytime I do it here.

today I plugged in my earpods, once again after a while. something about getting outside of reality somehow, and still my stressors around, I get a different picture and sensation of what I am.
on the subway, its very late, people from everywhere doing anything, and this getaway somehow gets me closer to those elements that make me feel passionate about life, and I get some kind of satisfaction out of the blues.

there is something that I find so funny about it all. I get by the world behavioring like hell, sometimes my resting state is at its peak and anyways the evil things get to me. I urge to elude, thus I be. I urge to get to you again, thus I do not. I urge to smile, thus I am. and finally, I urge to cry, thus I just feel. closer,
and closer to being alright.

band-aids.

está todo mundo perdido demais. passamos milênios deteriorando e refinando a fala, e chegamos em lugar nenhum. estamos cada vez mais a mercê do caos, e nosso histórico sociocultural nos prevê de longe. não conseguindo descrever-nos, muralhas são construídas entre um corpo e outro, e os contatos vulneráveis se desvanecem furiosamente. foda-se, respirarei aos pés de uma poesia mundana qualquer!

abstenho-me de minha vivência, e ela me transpassa. nada importa. continuo a atuar conforme proposto. sem sincronia alguma com o que está acontecendo ao redor, ainda estou na dança, ela não irá parar. ela manda. as vezes dançarei tristonho, às vezes risonho. tudo tem perdido e ganhado sentido de forma tão rápida e mecânica quanto meus pulmões se enchendo e esvaziando de ar em um piscar de olhos.

act.

as noites viraram dias rapidamente quando comecei a cair no abismo. as escritas vinham, normalmente de madrugada e eram meu último recurso de prazer. prazer do alívio, finalmente. me despedaçava nas teclas e ao estilizar um poema ou um texto qualquer, me sentia inteiro e respirando novamente.

eu estava evitando com sucesso todas minhas responsabilidades. sem voltar-me ao prazer, acabei me voltando ao nada. eu sabia que aquele momento se tratava de uma bomba-relógio de merda que explodiria em minha cara em pouco tempo. eu deslumbrava das noites e dormia aos dias aguardando o inevitável.

e tudo que lhe toma atenção, quando suas fontes de prazer estão paralisadas, torna-se amargo, superficial, elaborado demais, difícil demais: você tem que cuidar de tudo relativo a si mesmo, na referência dos outros. maqueie-se, sorria, beba, transe, produza, crie e morra conhecido e realizado. você treina a atuação a vida inteira para uma peça que nunca chegará.

trágico.

foi-se a semana catastrófica. elas sempre estarão por ai, pousando quando lhes convém, nada que você possa fazer. me pego fumando e brincando com as fumaças. as músicas são leves e boas; uma bela voz marroquina me lembra de que há mais de 8 maravilhas no mundo me esperando, autônomas e independentes de minhas vontades. hiberno sobre vocês, demônios do meu ontem, o sono cura tudo. os problemas começam a orbitar e dançar em minha volta, perfeita sincronia divina. meus amigos esmagam-se em suas vozes e gritam por mim, os encontros são risonhos e nunca farão mal à alma.

paro no farol. canto com meu rádio, está sol. um jovem artista cuidadosamente expõe os resultados do treino, sorri o tempo inteiro. me pego procurando moedas, ele merece, ele merece. talvez, eu mereça também, é apenas um reflexo de minha história. todo mundo sorrindo, vidros descendo e moedas dadas à sua própria glória. pensamentos de grandiosidade e de minha insiginificância se esbarram numa briga bonita de se ver. acelero meu carro, o paciente está ansioso pelo atraso de 2 minutos.

drinking sKills.

escrever estava me fazendo tão bem que eu pensava em parar. as bebidas me agradavam mais. eu pensava: cada vez mais próximo de uma pessoa e cada vez mais merdas surgirão. mas eu sempre me interessava, mais e mais. minha solidão tinha prazo e ela esgotava durante minhas tardes cinzas. eu estava cansado de corpos vazios. cansado de um bom papo com fim. cansado das manipulações, dos socialites, das roupas erradas, do físico torto. há pessoas que se esculpem na moralidade e dão sorrisos mentirosos para todos lados, morrem com muita simpatia ao seu redor.

gritos em meu keyboard.

o lance de ser cabeça dura é foda. tem um amigo que está há um ano na mesma. sofre, mas não fala, “não tem o que falar” – ele me diz. ai ele divide a fodida que está nele: fode algumas mulheres, acelera sua moto, fuma maconha e depois vai comer uma pizza quieto e feliz no balcão da padaria. dali alguns dias está deprimido.

você nunca sabe qual coisa da vida estará saliente aos teus olhos. ora você vê o belo, ora você vê a escória. da sua e da vida deles.

nada mais interessante que um corpo após dar ou receber um pé na bunda. todos caem na cama no primeiro momento. no segundo momento, uns logo levantam e vão se perder em algo: álcool, putaria, superficialidade, qualquer coisa. fingem nada ter acontecido. esses postergam o sofrimento, gênios! dali um tempo, a pressão da fodida derruba-os, e eles saem chorando. ai nada é suficiente, senão o retorno. são as grandes histórias que se repete há milênios, estúpidos corpos. deve ser por isso que tem tanta gente fascinada com gatos e cachorros, as pessoas estão se tornando gradualmente desinteressantes.

a minha geração é composta por pessoas fascinadas com séries, academia e catuaba. o primeiro distrai, o segundo atrai, o terceiro faz jus a época besta: beba o suficiente, e tudo ficará interessante. um dos ritos de passagem do desenvolvimento de um adolescente agora é começar a exercitar os braços, peitorais, bunda, diminuir barriga e ficar definido. a boa forma é a mais demandada das qualidades. a segunda é o bom papo, que é composto de conversas sobre ficar alterado, exercício físico, reclamar da dieta e as melhores séries. até os alternativos contracultura vão a academia agora. mais alguns anos e as pesquisas irão apontar para uma correlação inversa entre nível de QI e o quanto você malhou teu tríceps e tua bunda. vão estar errados, mas será engraçado.

a estética se tornou tão importante que as coisas mais interessantes vão tomando topografias burras. o rap, de racionais a projota: deu merda no caminho! antes, a denúncia escancarada que tomava forma de tapas na cara para qualquer um que a ouvisse; eram berros do efeito colateral do sistema; a revolta dos explorados. agora, rap hollywood: letras genéricas, leves e replicadas em massa sobre o amor ideal. segurem-se ao funk: origem crua e pouco polida. é apenas mais um efeitos dos muros que dividem a cidade.

mas deixe ser, caro autor idiota, faz muito sentido e tem bom ritmo.
caro leitor, prefiro beber.

eu estava em uma constante montanha russa. e a energia para as subidas estavam cada vez mais caras. e as descidas cada vez maiores. eu não tinha dúvidas que eu passaria muito mal no final da viagem. meu estômago já começava a contar uma história. os outros diziam que eu merecia o melhor. até ela me dizia isso. inferno! não havia um deus para me dar o merecido. eu me mantinha andando para frente, cada vez mais lentamente. talvez fosse verdade, talvez a parte boa estivesse logo ali. mas tudo que eu queria era desmoronar ainda mais. no outro dia era provável que eu tivesse algum ânimo. enquanto isso, eu me anestesiada com algumas doses de escritas.

fucking hollywood.

hollywood faz bilhões com filmes para encher uma porção de gente com o espírito romântico que mais vende: o que dá certo, o final feliz. mas é tudo uma merda. a outra metade da industria produz o contrário, é feito pelos que descobriram que dá tudo errado. os de corações fodidos. as crianças crescem ferradas, e assim que tem idade suficiente, chutam a bunda de trouxas como nós. é uma coisa nova: idade legal para chutar a bunda de otários. agora o clichê vai virar: é o cara que está sempre fodido, nos filmes e nas séries. enquanto isso nós pulamos de bar em bar, de cama em cama.

foda sua vida como você quiser.

eles estavam em um bar antigo, a juke box tocava um som blue wave com letras melancólicas, ainda que te fizesse se sentir bem com a vida. os dois amigos estavam na metade da garrafa, que já os fazia falar de tudo:
– eu quero me apaixonar
– para que você quer isso, velho?
– gosto das trocas
– as trocas vem e vão, você sabe – disse o bêbado, enquanto dava mais um trago
– não importa. queria sair sozinho por ai e curtir. depois você se encontra com ela e da umas risadas, uns beijos, abraça forte e discutem como se fosse uma bancada de doutorado. ai sai todo mundo ganhando: você sente que da para ser feliz por uns instantes, fica quieto e solta umas risadas enquanto trocam olhares. depois cada um vai para o seu lado, você volta a se foder no trabalho e a sentir prazer na solidão. ela vai fazer seja lá o que elas fazem.
– foda sua vida como você quiser.
estava tudo jogado para o ar, o caos reinava e tudo que eles realmente precisavam era de um pacote de cervejas, o tipo de música que lhe faz ter saudades de chorar, as conversas aleatórias e profundas e o afeto amigo.
– hey V., me ligue se precisar!
– sempre, sempre.

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me sufoquem.

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“quero que teus doces beijos me sufoquem”

cantava o quinteto numa quinta feira à tarde na grande avenida. o casal de mendigos esmurrados e expulsos da rua dançavam sorridentes, aceitaram a grande merda poética paulista! o que me sufocava era ela. não os beijos, mas sim a ausência de nossas trocas. onde está você ?

o quinteto continuava:

“quero que teus doces beiiijoss, me sufoquem”