foda sua vida como você quiser.

eles estavam em um bar antigo, a juke box tocava um som blue wave com letras melancólicas, ainda que te fizesse se sentir bem com a vida. os dois amigos estavam na metade da garrafa, que já os fazia falar de tudo:
– eu quero me apaixonar
– para que você quer isso, velho?
– gosto das trocas
– as trocas vem e vão, você sabe – disse o bêbado, enquanto dava mais um trago
– não importa. queria sair sozinho por ai e curtir. depois você se encontra com ela e da umas risadas, uns beijos, abraça forte e discutem como se fosse uma bancada de doutorado. ai sai todo mundo ganhando: você sente que da para ser feliz por uns instantes, fica quieto e solta umas risadas enquanto trocam olhares. depois cada um vai para o seu lado, você volta a se foder no trabalho e a sentir prazer na solidão. ela vai fazer seja lá o que elas fazem.
– foda sua vida como você quiser.
estava tudo jogado para o ar, o caos reinava e tudo que eles realmente precisavam era de um pacote de cervejas, o tipo de música que lhe faz ter saudades de chorar, as conversas aleatórias e profundas e o afeto amigo.
– hey V., me ligue se precisar!
– sempre, sempre.

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me sufoquem.

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“quero que teus doces beijos me sufoquem”

cantava o quinteto numa quinta feira à tarde na grande avenida. o casal de mendigos esmurrados e expulsos da rua dançavam sorridentes, aceitaram a grande merda poética paulista! o que me sufocava era ela. não os beijos, mas sim a ausência de nossas trocas. onde está você ?

o quinteto continuava:

“quero que teus doces beiiijoss, me sufoquem”

.

8:00, eu bêbado. entrei em uma padaria alemã, cervejas difíceis de pronunciar e pães a 50 reais o kilo. não comi. dois caras conversando com notebook aberto, negociação ou idealização, tanto faz. uma criança com o pai solteiro, ela queria saber porque deus estava escrito em minúsculo num texto qualquer, mais uma vez o país laico teria que se proteger. uma menina com fones de ouvido do outro lado do balcão. ela dança timidamente e deu uma pequena risada quando me viu olhando. em dias passados, me levantaria e conversaríamos. não hoje. agora você baixa um aplicativo e ele te fala quem estava perto e quer transar. não fiz nenhum, estava bêbado demais, a pizza do balcão era mais interessante que uma porção de comportamentos.

laetitia.

qualquer coisa em demasiado
faz mal.
eis a lei de ouro.

mas o equilibrio
lhe protege.
apenas lhe protege.

quando queremos o intenso
o surreal
transcendente.
aquilo que você não sabe dizer o que é
mas come seu corpo inteiro
e tudo está em chamas.
tudo brilha
e há vida na vida.
da-se vida à vida.

aí, o equilibrio não nos serve.
a dor que venha.
imploro por ela.

a intensidade em seu pico
é maravilhosa.

uma dessas madrugadas.

madrugada apenas vai, nunca vem.
me jogo nas músicas
no cigarro.
a visão da janela
é silenciosa e monstruosa.
a vida está simples e perigosa.
3:00 am.
corram para seus sonhos.

o vazio vem todas as noites.
o dia foi bom apenas por ser outro dia.
quem sobreviveu?

há uma porção de sonhos que não me atrevo a fechar o olho para ter.
eles sempre terminam.

mas levantarei com mais um sorriso no rosto.
bem-vindo à vida!

.

nos dias otimistas pensamos no nosso vazio como saudades das coisas que estão por vir. ansiamos a vida e brindamos às memórias. Nos outros dias, o vazio sai nas lágrimas e gira em torno dele mesmo: apenas o vazio.

embrace me, you: the finest art is not only true love, but how deep can you see it.

apenas outro dia.

a superficialidade me corrói a alma.
ela está no meu mostrar mais profundo.
não mostro.

está em todos os lugares, por ai:
falas
gestos
modo de andar
e o que comprar.
assim vai a vida e chega a morte para muitos.

me minto.
pulo em cima de minha bagagem
não quero que ela se feche.
ela não quer.
ela grita e me derruba
no fim do dia.

as pistas vem e vão.
minhas lágrimas se tornaram tímidas demais.
as colocar para fora é
dar área ao julgamento de outrem.
mas porque não às coisas reais
do fundo da caixa
do sentimento puro?

tenho caminhado demais.
achei no chão
as peças que
me foram destinadas.
tornei-me eu.

o mundo continua sujo
e lindo.
porque ainda vejo os dois?

quebro a cabeça
a possibilidade máxima é a felicidade
– ainda que não como um fim, mas como um meio.
é tangível.
mas de qual material é feita essa barreira
que segura as pessoas do lado de lá?
quebro a cabeça
como derrubá-lo?
aqui é tudo lindo.

jogue merda na sua parede e chame de arte.

jogue merda na sua parede e chame de arte.
saia por ai, faça o que quer, tudo se justifica.
qual foi o último rosto que não era dono da verdade?
o machismo é muito, o movimento feminista é muito, os jovens estão perdidos. faça sexo.
a velhice é o ápice da inteligência, tem que ser. senão, do que serviu todas aquelas tropeçadas, dores e barreiras?
vá à academia de manhã. beba e use drogas no final da semana.
simplifique e faça sexo no primeiro dia. complique calculando o tempo de resposta para as mensagens no celular.
sinta-se completo e fale com autoridade, mesmo que não saiba o assunto. seja carente em suas relações.
seja hipócrita. esse é o grito da sociedade.
imponha e seja imposto. qualquer outro ideal é ridículo.
engula toda cultura intelectual. ela é só tua, agora.
ame intensamente. intensamente se apegue a coisas bobas e acabe com seu amor. não aceite. seja cego no amor e nas discussões.
mas há beleza nas coisas bobas. do melhor tipo. aprecie-as.
o vento as leva. os castelos de areia, se dissolvem.
se jogue na multidão. esteja dentro de si.
introspecte-se e limpe o cuspe do mundo em seu rosto. cuspa de volta nele.
a culpa nunca é sua.
molde-se em seus ambientes. seja imutável, você nasceu assim.
seja seja seja.
é o caos.

os domingos eram os piores.

os domingos eram os piores

há um vazio qualquer
00:00 am.
ninguém na rua.

as pessoas já se recolheram
é o dia monstruoso
da o sinal para
mais uma rodada de vida
mais peso do dia dia.
mais e mais
das pessoas.

quem não cansa?

os domingos, eram os piores.

há um vazio qualquer
que vaga nestas ruas
muito mais cedo
que os outros dias.

meus pedaços se encolhem
neste pior dia,
o domingo.

uns reclamam
e outros bebem.
sempre passa.