quem sou eu?
com essa perna trêmula
e meus dedos comidos.

a quem engano?
com toda essa dúvida que carrego eu mesmo a todo tempo.

qual meu valor?
se corro o risco agora de já ter sofrido dos piores arrependimentos que eu poderei ter.

como incentivo verdades, se me sinto cheio das mentiras?

por baixo de minha percepção, sorrateiro, está sempre uma voz me dizendo:
você é uma mentira, você sabe que você não há nada aqui. onde está indo?

e eu sempre fui e sempre vou.
para onde, não me cabe saber. senão o que seria de mim?
mas vou sem malas, sempre sem malas.
sou uma ruína e não tenho sinais de que alguém esteve aqui.
apenas frio e meus desolados antagonismos.

quem sou eu?
sou esse terno poema,
sou algum dos lados do espelho que esses versos permite.

sou todo eu,
vazio
a todo tempo.

minha pernas trêmulas tremem
e meu corpo me leva arrastado pela madrugada inteira.

de olhos bem abertos, não tenho nada a procurar.
já sei demais desse apartamento
e as paredes daqui não são novidades.

não me atraem mais
os bons cheiros de prato cheio,
mas eu como, como por termos
esse ritual de sentar a mesa de jantar e conversar um pouco

em meu âmago sempre há espaço para algum humor e afeto.

as pessoas continuam boas,
mas as vezes me penso sozinho.

me lembro do nonno me dizendo em árabe:
“um dia você come mel, outro dia cebola”
sabedorias bem misturadas ao afeto te fazem correr maratonas!

ainda seremos todos normalizados
enquanto diferentes?

um dia de cama, outro dia de estrada.
o Sol (e quem sabe a sombra) sempre virão!

ter.a.pia

durante meses vi
uma borboleta se tornando.
e quando deixou seu casulo não havia peso,
então voou.

antes de ir, me falou: obrigado,
ter-a-pia.

e eu aqui,
de nada
e obrigado.
agora sou muitos mais eus do que eu era.

muitos mais eus, muito mais leves.
voamos.

às minhas memórias do grande espetáculo.

em meu leito peço gentilmente
que me perguntem como vejo as relações, uma vez mais.

pois o gozo das boas memórias
sempre me são formigadas por um tom entristecido do luto.

não me entenda mal, há um tipo de bem-estar peculiar e terrífico nisso,
mas minha mão continua estendida ao caso de ser tocada por
diferentes sentir.

sou curioso.

sobre este cigarro aceso que vocês deixaram em meu chão por pura estética.

des(necessário).⁣
torno-me facilmente uma sombra sem cheiro ou sabor.⁣

escorrem-me lágrimas de desespero,⁣
mas são apenas um atributo de minha voz interna e reflexiva,⁣
já que meu rosto continua seco e maciço.⁣

alarme, alarme, alarme!⁣
sou puxado diretamente de meus sonhos e pulo da cama!⁣
– real pesadelo.⁣
meus miolos estão contaminados de gritos de minha história.⁣
como um instinto velho e comum, me armo de razoabilidade, próprio de um ser frágil nas propriedades brutas do corpo.⁣

pudera eu, ser primal e raivoso.⁣
mas para que vocês o fossem,⁣
não fui.⁣

continuarei com cicatrizes.⁣
ao ar livre elas doem e são demais⁣
então guardo adentro.⁣
não preciso de primeiros ou segundos cuidados. ⁣

apenas trago minhas verdades rasgadas à beira da estrada⁣
é bom para tomarmos um ar.⁣

cafuné.

o misturar minhas necessidades aos objetos e me restringir a relações de berço⁣
me deixo enganar, penso por tempos que carícias me iluminariam,⁣
e cada vez menos metafísico e mais carne,⁣
me encoleiro em mãos ao redor do globo.⁣

sinto todo ódio e cansaço apontarem pra mim.⁣
não saem de vocês, mas dos enredos que tanto requisitei.⁣

uma voz suave, certa, diz que⁣
um espelho em uma mão e o coração na outra ⁣
poderiam ser transmutados em tratos bem feitos com o universo.⁣

de dúvidas às certezas mínimas sobre a existência de Minh’alma⁣
posso tocá-la como bom assaltante.⁣

para que eu não mais seja⁣
um andarilho atrás de um pedaço de⁣
Cafuné.